Corte de recursos reduz imunização contra sarampo

 

Fonte: Ministério da Saúde (2018)

O retorno do sarampo desde 2018 fez com que Ministério da Saúde buscasse uma maior imunização da população para conter o avanço do surto da doença. Essas medidas vem sendo ainda mais intesificadas após as três mortes ocorridas no país no mês de setembro. No entanto, o corte de recursos para a saúde tem reduzido  o número de pessoas com acesso às vacinas.  

Além do sarampo, a pólio, rubéola e difteria reapareceram fazendo a população retomar os cuidados com a vacinação. Essas doenças fazem parte do calendário de imunização, porém, atualmente vários postos de vacinação tem registrado a falta de estoque dessas vacinas após a grande procura.

O calendário de vacinação brasileiro já foi considerado exemplar. Vacinas para crianças de até quatro anos de idade, idosos, gestantes, profissionais da saúde e funcionários públicos são disponibilizadas gratuitamente na rede pública de saúde. No entanto, a oferta de vacinas no Sistema Único de Saúde (SUS) não tem sido suficiente para garantir a taxa desejável de cobertura vacinal da população. Alguns fatores contribuiram para essa queda, como a falsa sensação de que não é preciso se imunizar, pois não é tão visível os casos dessas doenças ao nosso redor. A redução do número de crianças e pessoas que tomam a vacina leva ao enfrquecimento da rede de imunização e permite o reaparecimento de doenças já erradicadas no Brasil. O outro fator preocupante são as fake news de que as vacinas tem efeitos colaterais mortais, o que tem gerado desinformação e medo na população.

Com isso, o Brasil registrou, nos últimos anos, o seu pior índice em 16 anos de imunização de crianças com até um ano de idade pelas vacinas como a BCG, Hepatite B, Meningocócica C, Rotavírus, Pentavalente, Tríplice Viral, Vacina Inativada Poliomielite, Influenza, Febre Amarela e Pneumocócica 10v. A situação com o restante das vacinas do calendário vacinal brasileiro não é diferente, todas estão abaixo da cobertura considerada ideal. As maiores reduções na imunização estão relacionadas a Poliomielite, Hepatites A e B, Pentavalente, Meningocócica C e Rotavírus, com quedas entre 17 e 21%. De acordo com o Programa Nacional de Imunização (PNI), em todo o país a cobertura vacinal em 2016 chegou a alarmantes 50,44%, uma redução considerável se compararmos a 2015, quando os índices de vacinação chegaram a 95%. A baixa imunização em 2016 ocasionou segundo o Ministério da Saúde cerca de 1.9 mil mortes por H1N1 em todo o país. Nos anos seguintes houve uma procura um pouco maior devido ao surte de 2016, mas ainda distante dos 95% consideráveis ideais para cobertura vacinal.

 

 

Fonte: Ministério da Saúde (2018)

Em 2018 foram aplicadas no Brasil cerca de 52 mil doses, e só o estado de São Paulo corresponde a 20% desse montante, com mais de 11 mil de doses aplicadas. A região Norte foi que mais sofreu com a redução da cobertura vacinal. O Ministério da Saúde também constatou que a região imunizou apenas de 67% dos grupos de risco, o menor índice de cobertura vacinal se comparado as outras regiões do Brasil. ,Uma cobertura bem abaixo da expectativa do Programa. Esta região enfrenta dificuldades de logística e coleta de dados pois parte da população vive afastada dos grandes centros urbanos,  sendo apenas possível o acesso de barco o que dificulta a entrada e atrasa a entrega das vacinas, causando um “furo” na rede de imunização da região.

A redução no número de crianças vacinadas deu início a um surto de sarampo em Roraima e no Amazonas, em 2018, que permanece em 2019. Segundo pesquisas realizadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a taxa de cobertura da tríplice viral que chegou a ser de 96% em 2015 entre crianças, caiu para 84% em 2017 e abriu caminho para o retorno da doença no Brasil.

Um boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde em março deste ano, apresentou os dados da doença entre 2018 e o primeiro trimestre de 2019. No ano passado foram confirmados 10.326 casos no Brasil, sendo o maior número no Amazonas com 9.803 pessoas doentes, o estado de Roraima com o segundo maior índice confirmou 361 casos e em seguida o Pará com 79, sendo a situação mais alarmante na região norte. Outros estados também tiveram confirmação de casos em 2018, Rio Grande do Sul (46), Rio de Janeiro (20), Pernambuco (4), Sergipe (4), Bahia (3), São Paulo (3), Rondônia (2) e Distrito Federal (1).

Em 2019, o sarampo teve 28 casos confirmados só nos primeiros três meses do ano, no Amazonas (5) e no Pará (23), porém nos últimos 90 dias houve uma elevação desses índices, com registros da doença em 13 estados, os 2.755 casos confirmados, entre início de junho e final de agosto, foram registrados em São Paulo (2078), Rio de Janeiro (15), Pernambuco (12), Santa Catarina (7), Distrito Federal (3), Paraná (1), Maranhão (1), Rio Grande do Norte (1), Espirito Santo (1), Bahia (1), Sergipe (1) e Piauí (1). Em Goiás, o sarampo retornou este ano, e até agora foram confirmados quatro casos da doença, segundo a Secretária Estadual de Saúde (SES).

Segundo a técnica de gerência de imunização da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás, Janete Diniz, quando há um fato que causa medo na população, consequentemente a procura por vacinas aumenta. Geralmente quando a população se alarma com algum fato, algum acontecimento impactante, ela procura mais as vacinas”. Ela lembra do caso que aconteceu em um hospital em Trindade, em Goiás, no ano passado, quando dez pacientes acabaram contraindo o vírus H1N1 e morreram. “Tem anos, como o ano passado, que teve aquelas ocorrências na Vila São Cottolengo, aquilo alarmou a população e a procura foi maior”.

Acompanhe no vídeo abaixo a entrevista na íntegra da técnica de imunização da Secretaria de Saúde de Goiás, Janete Diniz.

Campanhas de vacinação são feitas durante todos os anos. Segundo Janete Diniz, gestantes e crianças são os grupos de risco que têm maior dificuldade em atingir a meta. No que diz respeito às gestantes, a baixa pode ser explicada pelo medo das mulheres de que a vacina provoque efeitos colaterais no bebê. Em relação aos pequenos, a explicação é de que, em muitos casos, os responsáveis esquecem de levar os filhos para se vacinarem, ou até mesmo, não têm tempo. No entanto, devido às constantes campanhas de conscientização, o cenário teve uma significante melhora. A técnica de imunização reitera que a procura depende dessa frequência da divulgação dos órgãos governamentais, utilizando não só as mídias abertas, mas também as redes sociais. Dessa forma, a baixa na cobertura vacinal envolvendo os grupos de risco, pode deixar de ser um problema.

No infográfico abaixo você pode ver todas as vacinas que fazem parte da imunização obrigatória de crianças até os 4 anos de idade.

A produção de vacinas

Mesmo tendo o conhecimento da importância das vacinas para a prevenção de doenças imunopreveníveis, grande parte da população é resistente à vacinação. Um dos fatores que explica esse receio está relacionado com o desconhecimento do processo de produção das vacinas e dos mitos sobre doenças como diabetes e autismo que estaria relacionadas a vacina da poliomielite. O pesquisador e professor de Imunologia da Escola de Medicina da PUC Goiás, Mauro Mesquita, em entrevista à nossa equipe, falou sobre como acontece a pré-fabricação e explicou questões técnicas que envolvem todo o processo.

Confira no vídeo abaixo, a entrevista na íntegra com o médico e imunologista, Mauro Mesquita esclarecendo sobre como as vacinas são produzidas.

O professor Mauro Mesquita ainda respondeu questões importantes sobre a vacinação no Brasil, e ajudou a desmistificar dúvidas frequentes sobre a ação das vacinas no organismo, a composição, efeitos colaterais, entre outros pontos obscuros para a maioria da população.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, houve uma redução importante em 2016 e 2017 na aplicação de outros nove imunizantes indicados para o primeiro ano de vida. Essas 10 vacinas estão disponíveis gratuitamente nas unidades do SUS. Elas protegem de 17 doenças causadas por vírus e bactérias que, até 40 anos atrás, matavam todo ano milhares de pessoas no Brasil ou deixavam parte com danos irreversíveis.

Reportagem: Beatriz Monna; Guilherme Rodrigues; Kentenich Batista e Newton Reis.

Edição: Jéssica Borges, Carlos Eduardo; Ícaro Gonçalves e Noêmia Félix da Silva.

 

 

 

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