Bambu deixa de ser vilão e passa a aquecer a economia

O bambu sempre foi considerado como praga a ser combatida devido ao seu rápido crescimento e por invadir as áreas de mata nativas. Com o tempo esse pensamento está mudando e a planta vem deixando de ser um vilão para se tornar geradora de renda e uma substituição sustentável para matérias derivados de petróleo. Vários pesquisadores estão estudando o bambu, há mais de uma década, com o objetivo de estruturar uma cadeia produtiva do bambu devido à sua importância na substituição de materiais na construção civil, na decoração, utensílios de cozinha e como alimento.

Em Goiás, o bambu é estudado, desde 2013, pela Rede Bambu Goiás, composta por uma equipe de professores da Escola de Agronomia da UFG, Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Instituto Federal Goiano (IFG).  A Rede vem pesquisando e desenvolvendo a cultura do bambu no estado e auxiliando os agricultores que querem investir na produção e na busca de conhecimento sobre a planta. A rede de Goiás é afiliada à Rede Brasileira do Bambu (Bambu/BR) e possui coleção de espécies em campo, floresta demonstrativa, acervo de artefatos e biblioteca especializada. A rede reúne pesquisadores, produtores, empresários, artesãos e admiradores da cultura do bambu.

Rogério Almeida, coordenador da Rede Bambu Goiás

Os trabalhos começaram estimulando o plantio com a pesquisa e distribuição de 10 mil mudas para produtores rurais, mudas essas que segundo o coordenador geral da rede de pesquisa, Rogério de Araújo Almeida, as pessoas não queriam nem de graça. Mas com a possibilidade de gerar renda com a planta,  pela sua resistência à pragas, eles começaram a aceitar as mudas e aceitar as orientações dos pesquisadores.

 A rede de pesquisa tem como “objetivo estruturar uma cadeia produtiva do bambu em Goiás, como cadeias produtivas de  mandioca, queijo, rapadura, commodities como soja, milho, entre outros, além de incentivar o agricultor a utilizar a planta como mais uma alternativa comercial”, esclarece o coordenador da Rede.

Rede Bambu Goiás/Foto retirada do site da rede

A rede de pesquisa recebe verba de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico, possibilitando a construção de laboratórios, compra de reagentes e equipamentos. A equipe conta também com recursos recebidos recentemente da China, que tem proporcionado  troca conhecimentos entre os pesquisadores. Mas, ainda não contam com nenhum financiamento governamental específico.

Desde 2011 está em vigor, no Brasil, a lei nº 12.484 desde 2011, que institui a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu, a iniciativa partir da capacidade e potencial de crescimento da planta no ramo comercial. No entanto, em Goiás, só em março de 2019, foi sancionada a lei de Política Estadual de Incentivo à Cultura do Bambu, que trata sobre a cultura, o cultivo agrícola e o uso da planta como instrumento de promoção de desenvolvimento socioeconômico regional do Estado. A lei visa também incentivar os produtores rurais e as pesquisas científicas na área.

Segundo Rogério Almeida, o interesse em criar a lei  20.411, que instituiu a política estadual de incentivo à cultura do bambu, em Goiás, se deu em razão da necessidade de regulamentação da lei federal do bambu. A iniciativa partiu da Rede Bambu Goiás, que apresentou a ideia ao então deputado estadual Francisco Jr, que propôs a lei na Assembléia Legislativa de Goiás. 

A lei prevê uma parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Científico e Tecnológico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação – SED, mas que ainda não saiu do papel. “Na verdade, o que acontece é que a Lei não é autossuficiente. Assim, é necessário trabalharmos para que ela seja conhecida e passe a ter efetividade. Este é o nosso trabalho agora, a partir da criação da Lei. Se a gente não conseguir, será mais uma Lei que ficará apenas no papel”, afirma Rogério Almeida.

Antes que existisse a lei a rede de pesquisa sempre trabalhou para propagação dessa cultura entre os produtores rurais, sendo um dos grandes focos do bambu a agricultura familiar. Lelson da Cunha, 45, produtor rural, cultiva bambu na região de Santana do Pará há pelo menos três anos. O objetivo dele é combater a erosão do solo na beira do rio e está de olho também na sua utilização futura na construção civil. O produtor rural afirma que “gosto de bambu, acho bonito e acredito ele vai ser muito usado ainda na construção civil”.

A ampliação do cultivo do bambu está crescendo, mas depende de uma maior divulgação da sua importância sustentável ambientalmente e economicamente. Na UFG, os professores da rede de pesquisa oferecem uma disciplina aos alunos da Agronomia sobre o cultivo e manejo do bambu, mas alunos de todas as áreas do conhecimento podem fazer a disciplina. Essa é uma  das formas encontradas para divulgar e compartilhar conhecimento sobre o bambu. Segundo Rogério Almeida, é importante divulgar o bambu enquanto cultura, cultura no sentido de planta e no sentido cultural, mas com foco na planta, em uma cultura comercial, onde as pessoas possam cultivar o bambu e ter renda a partir desse cultivo.

Espécie ornamental do bambu/Foto: Driely Bonete

Outra forma de divulgação são os produtos que tem o bambu como matéria-prima, como a construção civil, na alimentação, no artesanato, na movelaria. Para se ter um ideia, são registrados mais 4.500 usos diferentes para o bambu. Além de participações em palestras em escolas e na comunidade, em 2018, a Rede Bambu participou da Feira Agro Centro-Oeste Familiar, com o Espaço Bambu, destinado a produtores rurais que trabalham com bambu apresentarem e comercializarem produtos. No mesmo ano foi instalada uma loja em um shopping da Capital, que durante um mês foram comercializados e divulgados produtos.

 

Bambu: no Brasil são mais de 250 espécies conhecidas pelos pesquisadores 

Existem no mundo mais de 1500 espécies de bambu, no Brasil são mais de 250 conhecidas e coletadas até o momento. “Acreditamos que deva ter outro tanto desse que não conhecemos ainda, nós descobrimos recentemente cinco espécies novas”, afirma Rogério Almeida.  

Bambus existentes por ecossistema brasileiro
Porcentagem do bambu por região brasileira

As espécies se diferenciam desde o tamanho tendo bambus com 10 centímetros, 30 centímetros de diâmetro e 30 metros de altura; de várias cores como, verde, amarelo, roxo, vermelho, preto, amarelo rajado, verde rajado; formas como, quadrado, redondo e meio oval e ainda os ocos e maciços. As diferenciações estão também nas espécies dos entouceirantes, aqueles que formam touceiras, nascem próximos e os alastrantes, se alastram com facilidade, nascem com uma distância maior entre os pés, a raiz se espalha muito rápido.

O bambu é um tipo de gramínea que é classificado entre os nativos, aqueles que nascem originalmente em determinado local e é cultivado ali mesmo e o exótico, espécie que vem de fora da região onde será plantado, pode ser de outras regiões e até países. O bambu comumente chamado no Brasil como, brasileirinho ou bambu imperial, de cor amarela com rajado verde é chinês, um exemplo de bambu exótico, pois veio de outro país.

Bambu Brasileirinho/Foto: Driely Bonete

Os bambus nativos do Brasil são os chamados taquaras e tabocas, nome de origem indígena. Além desses, tem ainda os bambus nativos do Brasil de grande diâmetro, os bambus gigantes comumente encontrados na Floresta Amazônica. Em Goiás foi recentemente encontrada uma espécie de bambu gigante, a planta foi chamada Guadua-Magna, em homenagem a Roberto Magno, ex-aluno da universidade que descobriu a espécie nativa das margens do Rio Crixás.

A manutenção da planta segue as orientações comuns de outros cultivos, passando pelo plantio, adubação, manter sempre limpo ao redor, quando pequeno o bambu é sensível ao capim braquiária que pode comprometer o desenvolvimento do mesmo. À partir do segundo ano a planta adquire um tamanho onde o capim já não é prejudicial, já no terceiro ano, ele produz o broto, segundo Rogério Almeida é considerado broto o bambu que tem uma altura de até um metro e meio.

Para que seja feito essa manutenção é necessário que exista primeiro as mudas do bambu. Rogério Almeida explica o procedimento “parte de uma planta matriz de qualidade, pegamos o material da planta, leva para o laboratório, nós vamos multiplicar isso por cultura de tecidos, onde é feita a multiplicação de células, pega um brotinho, uma gema que tem escondida no bambu, leva para o laboratório, limpa os fungos e bactérias, aplica hormônio e vai multiplicando, então de uma gema você produz agora um milhão de plantas geneticamente iguais.” Essa é uma técnica que exige um laboratório adequado e profissionais com conhecimento sobre a área, esse é ainda um dos projetos da equipe .

As mudas segundo Rogério Almeida são um problema, pela demanda ser maior que a quantidade disponível, com a micro propagação por cultura de tecidos a viabilidade do plantio e aumento das mudas é maior. Rogério valoriza ainda a qualidade e quantidade das mudas produzidas, as mesmas são vendidas e no mercado podem ter preços variados a depender da espécie do bambu, a variação é de 15 a 100 reais. A Rede Bambu tem a intenção de produzir mudas e disponibilizá-las para os produtores em uma média de seis reais.

Semente de Bambu/Foto: Driely Bonete

Existe também a possibilidade de propagação da planta por sementes que seria a mais barata, porém existem alguns problemas: algumas espécies de bambu não dão sementes e nem sabe em quanto tempo vai dar semente. Rogério Almeida alerta sobre isso, “como demora muito para produzir, provavelmente a semente não será daquela planta e pode comprar, mas corre alguns riscos como, a semente não nascer, por que seu  tempo de germinação é curto, e algumas podem até não nascer e quando nascem não existe a garantia de que a semente é realmente da espécie indicada”. Uma alternativa é a própria pessoa coletar as sementes, sabendo a origem delas. As sementes são usadas ainda como base para a propagação por tecidos depois que germinar.

A Rede Bambu possui uma coleção de bambus que são da UFG. O coordenador, Rogério Almeida, tem planos para a coleção, mas ainda não foram iniciados. Tem um plantio da universidade que é destinado para fins comerciais, por esse motivo ele tem um alinhamento e um espaçamento definidos.

Na coleção de bambus da UFG, eles contam com 60 espécies diferentes. Rogério conta que recentemente duas espécies novas chegaram do Japão. Um japonês trouxe primeiramente as mudas para o estado do Pará e outra pessoa trouxe para ele. A universidade mantém um viveiro onde as mudas são cuidadas antes de serem levadas para o campo.

Coleção de Bambu/Foto: Driely Bonete

Rogério explica que há um momento certo para que as plantas sejam levadas para o campo. O tempo tem que estar chuvoso, pois é mais propício para o bom desenvolvimento do bambu e se faltar água pode acontecer a morte da gramínea. Por isso é preciso que, antes de ser exposta ao campo, a muda seja tratada e cuidada até um certo tamanho.

 


Um dos maiores acervos do país sobre bambu

O acervo faz parte da Rede Bambu Goiás que fica na Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia. É afiliada à Rede Brasileira do Bambu (Bambu/BR) e possui coleção de espécies em campo, floresta demonstrativa, acervo de artefatos e biblioteca especializada.

Gilson Pedro Borges/Foto do Facebook

Gilson Pedro Borges é o responsável pela organização dos Acervos, da Fotografia e da Comunicação, ele é formado em Letras (inglês-português), biblioteconomia, além de ser o editor-assistente da revista. Há dois anos Gilson entrou para a Rede do Bambu e começou a catalogar todo o acervo sobre o bambu. “Tem cento e pouco objetos produzidos com bambu catalogados já, sempre que aparece um mais novo eu substituo, vou fotografando tudo e fazendo uma ficha catalográfica”, relata Gilson.

Com o objetivo de se atualizarem constante sobre o bambu existem vários projetos pensados pela equipe de pesquisa da Rede Bambu. A intenção é publicar uma revista científica especificamente sobre bambu, atualmente existe a revista Pesquisa Agropecuária Tropical, onde são publicados artigos sobre a planta e outros assuntos. Outra proposta desenvolvida por Gilson e pela professora Rosângela Vera, coordenadora do uso alimentar do bambu, é a produção de um livro de receitas sobre o broto do bambu. Recentemente foi produzido um livro infantil sobre o bambu, onde conta de forma simples a história do bambu e suas características. Todo esse trabalho de aprimoramento e exploração do conhecimento sobre bambu revelam um cuidado pela informação e pelo conhecimento sobre essa planta. Disseminando ao máximo essa cultura para o Brasil e outros países.

Quando Gilson começou, já existia um acervo de livros, porém, estava desorganizado e então, ele organizou tudo. “Tinha dois livros de bambus e eu sabia que o Rogério estava pesquisando, daí eu levei pra ele.” Gilson começou a conversar com o Coordenador Geral da Pesquisa, o Rogério de Araújo Almeida, e deu a ideia para fazerem um museu do bambu e uma biblioteca especializada, o Rogério aceitou e eles começaram. Eles estão tentando criar uma revista específica sobre bambu, pois há somente duas revistas científicas sobre bambu no mundo e uma está em chinês e a outra está desatualizada, o último artigo publicado foi em 2016.

Existem vários objetos de bambu, dentre elas: água perfumada para passar roupa, brinco, canudos, pente, guarda-chuva, broto, carvão, escova de dente, agulha de crochê e outras coisas, além da calculadora que funciona através da energia solar.

Fevereiro deste ano, a Câmara Municipal de Goiânia propôs um projeto de lei, de autoria do vereador e presidente da Câmara, Romário Policarpo, que visa a obrigatoriedade de hotéis, restaurantes, bares, lanchonetes e todos os demais estabelecimentos comerciais e similares autorizados pela prefeitura a usarem e fornecerem canudos de papel biodegradável e/ou reciclável individual e hermeticamente embalados com material semelhante. No projeto está previsto os canudos de bambu.

No acervo catalogado por Gilson tem uma réplica da lâmpada de Thomas Edison, que foi uma edição comemorativa de 100 anos. O filamento da réplica não é de bambu, mas os primeiros testes que o inventor da lâmpada fez foi com a planta.  

Réplica lâmpada/Foto: Máxia Lidyan

 

“Tem a luminária que é cortada com a serra tico tico. A serra tico tico é uma lâmina bem fininha. “ relata o pesquisador.  Rogério Almeida, até deu uma sugestão para o presidente da empresa japonesa Makita, que é fabricante de ferramentas elétricas, para que eles colocassem o selo do bambu em toda ferramenta que for superior às outras, para o uso do bambu, para que ao bambuzeiro ver o selo, ele saiba que foi testado no bambu. O presidente da empresa acatou a ideia do pesquisador e atualmente, toda ferramenta específica para o bambu, possui o selo.

Luminária feita com bambu/Foto: Máxia Lidyan

 

Conheça mais informações sobre o aproveitamento do bambu.

 

 

Edição: Jéssica Borges

 

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